O Segredo do Casamento
Junho 25, 2008Na Praia…
Junho 25, 2008“Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e
muita gordura, pouco trabalho e muita micose.Verão é picolé de Kisuco no
palito reciclado, é milho cozido na água da torneira, é coco verde aberto
pra comer a gosminha branca. Verão é prisão de ventre de uma semana e
pé inchado que não entra no tênis.
Mas o principal ponto do verão é…. a praia! Ah, como é bela a praia.
Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção. Os casais
jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.
Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a
prancha pra abrir a cabeça dos banhistas. O melhor programa pra quem vai à
praia é chegar bem cedo, antes do sorveteiro, quando o sol ainda está fraco
e as famílias estão chegando.
Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três geladeiras
de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa, toalha, bola, balde,
chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.
Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e
prontos pra enterrar a avó na areia. E as crianças? Ah, que gracinhas! Os
bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por uma
conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem. As
mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho afogado e
caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do chinelo. Já os homens
ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar o poço pra fincar o cabo do
guarda-sol. É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol
ficar em pé…
Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha que
é entrar no mar! Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de
latinha de cerveja no fundo. Aquela sensação de boiar na salmoura como um
pepino em conserva.
Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita cheia
de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa. A gente abre a esteira
velha, com o cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros e
puxa um ronco bacaninha. Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do
calor!!!!!
Mas, claro, tudo tem seu lado bom. E à noite o sol vai embora. Todo mundo
‘volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho e deixa o
sabonete cheio de areia pro próximo. O shampoo acaba e a gente acaba lavando
a cabeça com qualquer coisa, desde creme de barbear até desinfetante de
privada. As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa da praia
oferece. Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na
rede pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.
O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família. Todo
mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo, pra que
na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no mesmo
inferno tropical…”
Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência.
Luís Fernando Veríssimo
Amor em 10 Fases
Junho 24, 2008- Sabe, querida, quando você fala me faz lembrar o mar…
- Puxa, amor. Não sabia que te impressiono tanto.
- Não é que me impressione. É que enjoa.
Amor II
- Querida, vamos ter que começar a economizar.
- Tudo bem… Mas como?
- Aprenda a cozinhar e mande a empregada embora.
- Ta legal… Então aprenda a fazer amor e pode dispensar o motorista.
Amor III
Adão e Eva passeavam pelo Paraíso. E a Eva pergunta:
- Adão, você me ama? E o Adão, resmungando:
- E eu lá tenho outra escolha? Amor IV
O cara pergunta para a mulher:
- Querida, quando eu morrer, você vai chorar muito?
- Claro, querido. Você sabe que eu choro por qualquer besteira…
Amor V
Um casal vinha por uma estrada do interior, sem dizer uma palavra.
Uma discussão anterior havia levado a uma briga, e nenhum dos dois queria dar o braço a torcer.Ao passarem por uma fazenda em que havia mulas e porcos, o marido perguntou, sarcástico:
- Parentes seus?
- Sim, respondeu ela. Cunhados e a sogra!
Amor VI
Marido pergunta pra mulher:
- Vamos tentar uma posição diferente essa noite?
A mulher responde:
- Boa idéia, você fica aqui em pé na pia lavando a louça e eu sento no sofá!!!
Amor VII
- A mulher compra um kit da Tiazinha para surpreender o maridão que há tempos não se animava.
- E aí, querido? Com quem eu fiquei parecida?
- Do pescoço pra cima com o Zorro, do pescoço pra baixo, com o Sargento Garcia.
Amor VIII
O marido decide mudar de atitude. Chega em casa todo machão e ordena:
- Eu quero que você prepare uma refeição dos deuses para o jantar e quando eu terminar espero uma sobremesa divina. Depois do jantar você vai me fazer um whisky e preparar um banho porque eu preciso relaxar. E tem mais. Quando eu terminar o banho, adivinha quem vai me vestir e me pentear?
- O homem da funerária… respondeu placidamente a esposa.
Amor IX
- Querida, o que você prefere? Um homem bonito ou inteligente?
- Nem um, nem outro. Você sabe que eu só gosto de você.
Amor X
Marido e mulher estão tomando cerveja num barzinho.
Ele vira pra ela e diz:
- Você está vendo aquela mulher lá no balcão, tomando whisky sozinha?
Pois eu me separei dela faz sete anos! Depois disso ela nunca mais parou de beber.
A mulher responde:
- Não diga bobagens. Ninguém consegue comemorar durante tanto tempo assim!
Autor Desconhecido
Textos Alheios
Junho 24, 2008Vira e mexe recebemos algum e-mail com uma história interessante. Este espaço é dedicado a estes textos, que muitas vezes nos alegram, nos supreendem e nos ensinam.
Grande abraço e boa leitura.
Fúria do Céu
Junho 23, 2008Essa história me rendeu o primeiro lugar em um concurso de redação jornalística na escola. Ela foi baseada em um caso real, acontecido comigo e minha família em janeiro de 1.997.
Na tarde de ontem, a população de uma cidadezinha do interior de São Paulo ficou em estado de alerta. Depois de três dias de chuva constante, uma cena assustadora se tornou presente. Quando menos esperavam um relâmpago cruzou o céu e caiu em um chácara próxima, atingindo uma grande paineira e matando trinta bois que ali descansavam. O choque foi tão grande que chegou a atingir algumas pessoas dentro da casa.
A população correu em auxílio dos moradores da chácara, procurando socorrer os feridos, mas pouco puderam fazer em relação aos bois.
Os moradores do lugar culparam a estação de rádio local, tendo em vista a antena da rádio local estar acoplada no pára-raios da torre da Sabesp. ” Nunca tivemos problemas com isso antes “, disse Antonia Medeiros, moradora da cidade. ” A antena da rádio atrapalha a atividade do pára-raios “, completou o fazendeiro Geraldo Aguiar.
A Prefeitura prometeu efetuar a remoção da antena da rádio para um local que não mais venha causar transtornos aos moradores pela fúria do céu.
Surpresa
Junho 23, 2008Conto escrito especialmente para o Overlook Hotel, e para seus hóspedes. Minha primeira fanfic para o grupo.
Andy/Charlie/J.C.Santana
SURPRESA
Por Andy Dufresne – escrito em 2003
Andy estava preocupado com o silêncio que se fazia no hotel. Por
duas vezes pensou em ter ouvido ruídos estranhos, como grunhidos de
um animal selvagem e um chiado constante, como uma grande panela de
pressão prestes a estourar. O frio se tornava mais intenso ao passar
dos dias, e isso incomodava ainda mais o jovem Andy. A calefação não
estava funcionando, forçando-o a procurar roupas mais quentes.
- Droga, isto aqui está mais frio que minha cela em Shawshank -
disse Andy colocando outro par de meia para esquentar os pés.
Foi então que ele percebeu outro ruído chegando aos seus ouvidos.
Um zumbido forte e assustador, embora um pouco abafado. O zumbido
vinha da janela, e quando Andy olhou em sua direção prendeu a
respiração. Todo o vidro da janela estava tomado por centenas de
vespas.
- Deus meu ! O que é isto !- disse Andy se levantando e indo se
encostar na parede, vendo horrorizado as vespas se debatendo e
atropelando umas às outras, como se estivessem procurando uma
passagem para dentro do quarto. E Andy achou que era isso mesmo que
elas queriam. Entrar dentro do quarto e atacá-lo com seus ferrões.
Ele sentia a raiva delas através do zumbido que elas produziam.
Andy não pensou duas vezes, abriu a porta e correu para o
corredor, tentando pensar em uma maneira de se livrar das vespas.
O corredor nunca pareceu tão estreito para Andy. O zumbido das
vespas enchiam sua cabeça. Ele saiu batendo em todas as portas das
suítes, mas ninguém apareceu. A impressão que dava era de que
realmente não havia mais ninguém no hotel.
Ao descer para o salão as preces de Andy pareceram ser ouvidas.
Próximo ao relógio estava Firestarter, tomando notas em um bloco de
papel.
- Ei, Fire ! Você precisa me ajudar, cara – dizia Andy sacudindo
o amigo pelos ombros.
- Ei, ei, ei ! Calma lá, rapaz. O que está acontecendo ?
O suor já brotava da testa de Andy. Ele era um sujeito que
transpirava com muita facilidade.
- Vespas… centenas delas… lá na janela do meu quarto. Parecem
enlouquecidas. Estão a ponto de estourar o vidro e invadir o quarto
e…
- Acho que você está exagerando um pouco, Andy – disse
Firestarter estranhando a história. Não deve haver muitas vespas
voando por aí neste frio que está fazendo.
- Não estou exagerando, Fire. Se não acredita venha até o meu
quarto e veja por você mesmo – disse Andy olhando fixamente para seu
amigo Fire.
Fire percebeu que alguma coisa estava acontecendo para o amigo se
comportar daquela maneira.
- Tudo bem, Andy. Vamos até lá dar uma olhada.
Os dois subiram e quando Fire entrou no quarto viu que Andy não
estava enganado. Centenas de vespas estavam agrupadas no vidro da
janela. Pareciam uma onda viva preta e amarela. O vidro da janela já
estava começando a rachar com o peso das vespas. O que mais
impressionava era o zumbido louco que elas faziam.
- Está vendo agora que eu não estava mentindo ? -Andy parecia
querer a aprovação do amigo de que não estava enganado.
- É, cara. Você verdadeiramente não estava exagerando, Andy boy.
- E agora. Elas estão quase entrando. O que vamos fazer ?
O som que as vespas faziam era realmente assustador. A impressão
que se tinha era que elas estavam “falando” com os dois. “Esperem só
mais um pouco, e verão o que podemos fazer”.
Andy tinha uma certa aversão a vespas . Quando ele tinha 12 anos
estava brincado com suas bolinhas de gude com um amigo e de repente
uma vespa pousou no braço do amigo. “Ei, Andy! Mata ela pra mim !”
pediu o amigo, e Andy sempre solícito preparou um grande tapa para
dar no pequeno inseto. Só que Andy não contava com a rapidez da vespa
e quando baixou a mão a vespa voou antes de Andy acertá-la. O tapa
porém acertou o braço do amigo em cheio, deixando uma grande marca
vermelha.
Andy pôde acompanhar o vôo da vespa, que a princípio parecia que
ia embora, mas de repente ela começou a fazer o contorno no ar, como
um bumerange, e voou na direção de Andy. Ele ficou alí parado,
surpreso com a atitude do inseto. Ele achava que ela logo iria fazer
uma nova curva e tomar outra direção. Mas não foi isso que aconteceu.
A vespa foi se aproximando cada vez mais. Andy estava petrificado,
pois nunca tinha visto aquilo, era como um avião kamikaze, prester a
acertar o alvo. O inseto foi se aproximando…se aproximando…e
cabum… acertou Andy bem no olho esquerdo. A dor explodiu na cabeça
de Andy como fogos de ano novo. Um dor intensa, lancinante, tomou
conta de seu olho esquerdo. Ele imediatamente levou as mãos ao olho
ferido e não teve como conter as lágrimas.
- Andy ! O que foi que aconteceu, cara !- quis saber o amigo que
na hora do choque da vespa com o olho de Andy estava mais preocupado
com o ardume do tapa que levou.
- Foi a maldita…vespa…ai,ai,ai…a puta me acertou bem no
olho. Merda ! Tá doendo muito – Andy gemia sem nenhuma vergonha do
amigo.
- Deixa eu dar uma olhada – pediu o amigo.
Andy tirou as mãos de cima do olho, e tentou abrí-lo. O esforço
era muito doloroso. Ele mal conseguia enxergar com o olho direito por
conta das lágrimas que tornavam as coisas totalmente fora de foco,
quanto mais do olho atingido, que naquele momento crescia como um pão
no forno, se transformando numa grande bola vermelha disforme.
O amigo o ajudou a ir até sua casa, que ficava próxima dalí e o
conduzio ao cavalete de água, onde Andy permaneceu uns bons vinte
minutos deixando a água cair sobre o olho. Isso de certa forma
anulava a queimação causada pela picada.
Depois desta experiência Andy aprendeu a ter um certo “respeito”
pelas vespas e todos os insetos que pertenciam a sua família, como
abelhas e marimbondos.
Foi o zumbido que fez com que Andy voltasse da lembrança daquele
terrível dia de sua infância. O zumbido, e depois a forma com que
Firestarter estava olhando as vespas.
Fire estava paralisado olhando as vespas com os olhos muito
abertos. Andy pensou que ele poderia estar se sentindo mal. Mas não
era um olhar de surpresa, como o dela naquele dia de sua infância,
mas era um olhar fixo. Como se Firestarter estivesse querendo se
comunicar com as vespas através dos olhos.
- Ei, Fire ! Você tá legal, cara !
Firestarter não respondeu ao amigo, ao invés disto ele começou a
tremer um pouco. Os olhos fixos nas vespas, como que querendo
hipnotizá-las. O rosto começou a ficar avermelhado. Andy podia ver as
têmporas latejarem. E percebeu que alguma coisa muito estranha estava
prestes a acontecer.
Andy olhava com espanto a cena que se desenrolava à sua frente. Firestarter estava completamente concentrado nas vespas na janela. O tremor em seu corpo estava se intensificando, e Andy começou a ficar preocupado. Pensando que o amigo poderia estar tendo um ataque qualquer.
- Ei, Fire ! O que está acontecendo, cara ! Quis a saber Andy, tocando no ombro do amigo.
- Não toque em mim, Andy – disse Firestarter sem desviar os olhos das vespas. Sua respiração estava mais ofegante.
Andy retirou a mão e olhou com surpresa para o amigo. Não estava entendendo o que estava acontecendo, e nem o por que da reação de Firestarter. Aquilo não estava se encaixando, não da maneira que as coisas deveriam se encaixar. As coisas estavam muito estranhas naquele hotel. E a cada dia novos fatos se tornavam mais estranhos ainda.
Um odor de repente invadiu as narinas de Andy. Era um cheiro leve, ainda fraco, mas conhecido. Um cheiro de algo queimando. Andy olhou em volta para ver de onde estava vindo aquele cheiro, e então seus olhos encontraram a origem do odor. As vespas. Pequenas linhas de fumaça estavam saindo de seus minúsculos corpos. Linhas de fumaça que aos poucos estavam se tornando mais intensas. Andy sentiu o queixo cair quase até os joelhos e ficou perplexo. Nunca tinha visto nada igual em toda sua vida. De repente algumas vespas começaram se incendiar, transformando-se em pequenos corpos incandescentes . Outras começaram a explodir, lançando seus fluidos no vidro.
Andy estava ao mesmo tempo apavorado e fascinado. Olhou para Firestarter e percebeu que ele era o responsável por aquele acontecimento. Meu Deus como alguém podia fazer aquilo ? Que poder incrível. Definitivamente Andy queria morrer amigo de Firestarter. Não gostaria de arrumar uma briga com ele.
O que mais impressionava Andy era que as vespas apesar de estarem sendo destruídas não deixavam de golpear o vidro com seus ferrões, parecendo mini-britadeiras. O zumbido também se intensificou. Pareciam dizer “Não adianta tentarem nos parar, nós vamos entrar e acertar vocês com nossas armas, chapinhas. Esperem só pra ver”.
Andy viu que Firestarter franziu mais o cenho, na certa se concentrando mais. A têmpora latejando visivelmente. As vespas se transformaram em uma única bola de fogo e o vidro da janela, já fragilizado pelos golpes e pelo frio explodiu, lançando cacos de vidro incandescentes para todos os lados da suíte. Junto com os cacos várias vespas se espalharam pelo aposento, como um bando de vaga-lumes. Mas não representavam mais nenhum perigo, pois estavam todas carbonizadas. Tomado pelo esforço e cansaço Firestarter se apoiou numa cadeira e levou a mão direita na têmpora, massageando-a.
Cara, o que foi que você fez ? Perguntou Andy fascinado com o que viu.
Eu apenas quis esquentar os ânimos delas – respondeu Firestarter com um sorriso irônico.
- Acho que você não apenas esquentou os ânimos, mas botou fogo na situação, literalmente falando.
Os dois fizeram um breve silêncio, que foi quebrado por Andy.
Cara, mais que coisa mais louca. O que foi que deu nesses bichos para agirem assim ?
- Bem, Andy. Acho que você está na hora de você saber algumas coisas – Firestarter olhava Andy de maneira muito séria.- Está preparado para ouvir ?
- Pode apostar que sim, camarada. Depois do que vi aqui acho que preciso entender algumas coisas.
Eles estavam terminando de colocar um papelão na janela, improvisando um vidro para o que havia explodido. Andy sentia os corpos, agora carbonizados, das vespas sob suas botas. Pareciam grãos de café se esfarelando com os golpes de um pilão.
Depois de terminado o serviço, Andy chamou Firestarter para se sentar em uma cadeira de espaldar.
- Muito bem, camarada ! Se quiser, pode começar – disse Andy, se acomodando na cadeira ao lado da de Firestarter.
A ansiedade estava aumentando. Andy não sabia se era por conta das vespas ou se por conta do próprio Firestarter.
Bom , Andy ! O lance é o seguinte – Firestarter fez uma pausa, colocando as duas mãos colocadas uma na outra na boca, como se preparando para fazer uma oração. – As coisas que acontecem neste hotel, não são coisas que acontecem em qualquer hotel .
Como assim, eu não estou entendendo !
É o seguinte. Aqui , claro, houveram alguns escândalos. O Overlook sempre foi rodeado das atividades mais diversas. Tanto políticas, como de personalidades famosas das mais variadas camadas da sociedade. Mas não é só isso. Existem coisas muito mais complexas entre essas paredes do que você imagina – ele fez uma nova pausa, aquilo incomodou um pouco Andy, pois ele queria saber logo o que o amigo queria dizer com aquilo.
O que você achou do que eu fiz com as vespas ?
Cara, eu achei… sei lá o que eu achei. Nunca vi nada parecido em toda minha vida.
Pois é. Aqui no hotel existem outras pessoas que podem fazer coisas muito parecidas com as que eu fiz. Algumas até podem fazer coisas maiores e más – Firestarter disse esta última frase piscando o olho.
Andy ficou imaginando como estava cercado de pessoas não tão normais quanto ele imaginava. Pessoas que poderiam simplesmente queimá-lo vivo. Este pensamento causou um arrepio em sua espinha.
Coisas más, você disse ?
Isso mesmo. Existem pessoas que podem ler sua mente, influenciar suas ações, confundir seus pensamentos, queimá-lo e fazer você sentir dor, muita dor. Você nem imagina como eles adorariam vê-lo gritar e se espernear, implorando por sua vida – nova pausa.
Andy estava se sentindo desconfortável com aquela história. Estava com medo das coisas que estava sentindo. Dos sentimentos que estavam sendo despertados com aquelas informações.
Como se tivesse percebido o pânico nos olhos do amigo, Firestarter tentou tranqüiliza-lo.
Mas não são todos aqui que são maus.
Ainda bem ! Estava começando a considerar a idéia de ficar trancado no quarto.
Mas… mesmo sabendo que existem algumas pessoas boas, eu não confiaria em todo mundo.
Por quê ?
Porque alguns podem simplesmente se “passar” por bonzinhos – Firestarter deixou escapar um pequeno sorriso. Parecia se divertir com o desespero do amigo.
Cara, você tá me assustando – disse Andy, com os olhos arregalados de espanto.
Calma, Andy ! Não quero assustá-lo mais do que deveria. É que as vezes eu me empolgo – disse Firestarter, exibindo outro sorriso matreiro.
Andy olhou em volta tentando mudar o assunto, aquilo o estava apavorando de verdade.
Espero que o papelão não caia com a tempestade – disse Andy apontando para a janela.
Depois a gente vê se meu pa…o zelador troca o vidro – Agora era Firestarter que parecia meio desconfortável. Andy percebeu que alguma coisa de errada estava acontecendo.
Ei, Fire ! O que você está escondendo, cara !
Tudo bem. Acho que não posso esconder isso por mais tempo. Talvez esteja na hora de contar mais alguma coisa sobre mim – Fire se endireitou na cadeira e olhou sério para Andy.
Meu primeiro nome é Danny, e o zelador deste hotel é meu pai – Firestarter abaixou um pouco os olhos, meio constrangido.
Seu pai é o Jack Torrance ? – Perguntou Andy totalmente surpreso.
Sim, eu sou Danny Torrance, o filho de Jack Torrance.
Cara, eu pensei que o filho dele estava desaparecido. Até ouvi algumas pessoas procurando por ele pelos corredores do hotel. Alguns disseram até que ele havia fugido do hotel com a mãe dele há vários anos atrás.
É verdade. Eu consegui sair daqui com minha mãe, mas voltei, minha mãe voltou também. Mas já faz um bom tempo que ela não me via. Eu andei por muitos lugares, procurando algumas respostas. E finalmente voltei.
Por quê ?
Porque eu quero meu pai de volta – disse Firestarter com um olhar cortante. De pura fúria.
De volta ? Não estou entendendo.
Dentre as coisas e pessoas que lhe falei, Andy. Você tem que tomar cuidado principalmente com este hotel. Foi “ele” que levou me pai para longe da gente. “Ele” que tentou destruir minha família. “Ele” invadiu o corpo e a mente de meu pai, enganando-o e tentando jogá-lo contra mim, e minha mãe. Este hotel tem poderes incríveis. Se utiliza de todos os seus artifícios para envolver os hóspedes. Mas ele tem medo de mim. Já tinha antes, e agora que eu estou mais forte e posso controlar melhor meus poderes ele sente mais medo ainda. Eu formei uma sociedade com pessoas com poderes para podermos lutar contra o hotel. Esta sociedade é a SFF.
Já ouvi dizer. Vocês andaram pedindo algumas mudanças no hotel.
Na verdade era uma forma de despistar o nosso verdadeiro intuito. Que é o domínio sobre as forças que agem neste hotel. Só assim poderei salvar meu pai, e também outras pessoas que estão se deixando levar pelo hotel, eu sinto isso. “Ele” precisa da energia de pessoas especiais para poder sobreviver.
Andy estava impressionado com aquilo tudo. Precisava de tempo par poder pensar um pouco a respeito de tudo aquilo. Um grande nó estava se formando na cabeça de Andy.
Não esqueça, Andy. Tome cuidado com as pessoas que encontra. E principalmente com o hotel. Ele tem muitos truques para atrair as pessoas e depois acabar com elas. Fique de olho , Andy. Não se deixe enganar. Não confie no Overlook.
Andy pretendia seguir o conselho do amigo. Iria tomar mais cuidado com as pessoas e principalmente com o hotel Overlook. Agora que Firestarter havia dito destas coisas, ele compreendia melhor alguns momentos que ele vivera no hotel. Não, ele não estava disposto a se entregar aos desejos do Overlook. Havia passado por muitas coisas ao longo dos seus dias para acabar servindo de adubo para um hotel mal-assombrado. E se para isso ele teria que lutar contra o hotel, então, que a luta começasse.
FIM
Desejo
Junho 6, 2008Esta foi a primeira fanfic que escrevi. Na época gostava muito de assistir ao seriado Arquivo-X. Portanto, resolvi escrever uma fanfic e encaminhar para um site sobre o seriado. Isso aconteceu por volta de 2001.
- Charlie/Andy

As estrelas estão mais luminosas e a lua está mais leitosa do que nunca hoje. Fico pensando no que você diria se estivesse aqui. Você faz tanta falta Mulder. Sua ausência faz com que me senta tão vulnerável, que me assusta. Que saudade de suas teorias, de seu sorriso, e principalmente do seu companheirismo. O mundo não é o mesmo sem você, muito menos eu. Fico acordada durante horas pensando em que lugar você deve estar, e principalmente em “como” deve estar. A angústia me aperta o peito e me faz sofrer com a falta de sua presença. Só agora percebo o quando você é importante para mim. Só agora percebo o quanto você me completa. Você é a única pessoal em quem eu posso confiar totalmente, uma das únicas pessoas que me conhece bem, às vezes melhor do que eu mesma. Tantas coisas passadas juntos. Tantos anos compartilhando tantas emoções, muitas vezes além da imaginação humana.
Sem você me sinto só. Na verdade não estou só, não tive tempo de lhe dizer que estou carregando uma vida dentro de mim. Penso em como você iria reagir quando lhe contasse. No que iria dizer. Mas essas são perguntas que por enquanto não tenho respostas. Apenas peço para que as consiga logo, urgentemente. Pois não estou agüentando a sua falta. Não estou suportando ter que ir trabalhar todo dia e saber que você não estará lá quando eu chegar.
O agente Doggett está me ajudando a encontrar alguma pista que possa nos levar a você, além de estarmos trabalhando em alguns casos. Ele é uma excelente pessoa. Apesar de ser bastante reservado consigo perceber que ele é um bom homem e que está atrás da verdade. É engraçado, mas ele me faz lembrar de mim mesma quando nos conhecemos. Ele é tão céptico quanto eu era. Só que ele não presenciou o que eu já presenciei com você, por isso eu posso compreender o que ele sente quando exponho as minhas teorias malucas inspiradas em você. Agora eu percebo o que você sentia quando eu tentava lhe expor minhas teorias científicas. Parece que de certa forma eu acabei me tornando você, Mulder. Mas acredite, eu gostei da mudança, gostei muito.
A cada dia que passa sinto o ser dentro de mim crescer cada vez mais. Como eu gostaria que você fosse o primeiro a ter tomado conhecimento, e como eu gostaria que você estivesse aqui, me acompanhando nessa nova fase da minha vida. Sem você essa minha nova fase não está completa. Está sendo muito difícil administrar essa situação sem você por perto. Sinto-me insegura, e totalmente perdida. Tudo bem que as pessoas estão me dando apoio, em especial o diretor assistente Skinner e Doggett, mas não é a mesma coisa sem você. Era você que eu queria que estivesse do meu lado, me ajudando e compartilhando desse momento.
Se de repente você puder ler meus pensamentos, se puder captar minhas ondas cerebrais, tente se manifestar de alguma maneira. Tente me mandar uma mensagem. Mas, se não puder, então tente voltar Mulder. Tente de alguma forma escapar e voltar. Pois eu preciso de você, preciso que você volta para que minha vida volte a fazer sentido novamente.
FIM
No Acalanto da Noite
Junho 6, 2008
Por Andy Dufresne – out/07
Kleber estava terminando sua cerveja e pensando sobre os últimos acontecimentos em sua vida. Na razão pela qual estava tão distante de casa. Escondido dos problemas e principalmente de problemas ainda maiores.
Havia sido idéia de Ratão ele dar um tempo na casa da irmã, no interior de São Paulo. Pelo menos até as coisas esfriarem. O incidente com a velha poderia trazer mais complicações, e isso poderia afetar todo o esquema que eles tinham na região. Portanto, o melhor era dar um tempo longe do local e voltar só quando as coisas se acalmassem.
A velha tinha estragado tudo. Custava ela ter colaborado no assalto? Não, ela tinha que dar uma de mocinha e reagir, dando-lhe bolsadas na cabeça e gritando por ajuda. Ele não tinha a intenção de feri-la, mas quando percebeu já tinha lhe enfiado o canivete logo abaixo da axila esquerda.
O problema maior era que a velha era mãe de um policial, e ele sabia que o coxinha não iria deixar de ir atrás dele, e de quem estivesse com ele.
- Mais uma gelada, por favor? Pediu ao balconista.
- É pra já, filho! – disse o balconista pegando mais uma garrafa de seu freezer horizontal.
O lugar não estava muito cheio. Havia alguns homens jogando dominó e outros jogando sinuca. Já estava na cidadezinha há uns três dias e não estava mais aguentando o lugar. Era sossegado demais para ele. A agitação da cidade era o que lhe agradava. O tumulto das pessoas trafegando pelas ruas. Além do que, era perfeito para executar seus furtos e sumir no meio da multidão.
Desde que seus pais morreram em um acidente de carro, há 10 anos, e ele passara a morar com uma tia, as coisas haviam se enveredado por outro caminho. Estava com 13 anos na época, e as mudanças da adolescência já estavam aparecendo. O nervosismo e a intolerância já eram presentes, mas com a falta dos pais esses sentimentos haviam sido multiplicados. Logo ao mudar de escola, por conta de ir morar com a irmã de sua mãe, ele começou a se envolver com uma turminha barra pesada. Conheceu os cigarros de maconha, e antes do final do ano já estava tendo seus momentos de intimidade com a cocaína
Mas Kleber sempre procurou esconder tudo dos tios. Não entregava os bilhetes que a diretoria encaminhava. Quando seu tia participava das reuniões ele sempre dizia que os professores estavam de marcação com ele. Que suas notas não eram tão ruins. Tudo graças às colas que pegava dos colegas em troca de um pouco de erva. Mas isso seus tios não precisavam saber, é claro.
As coisas ficaram melhor quando seu tio faleceu, 4 anos depois, deixando sua tia quase louca e apavorada em poder cuidar das contas do mês. Foi quando ele largou os estudos, com o pretexto de ajudar sua tia nas despesas de casa. No entanto, o dinheiro que vinha para dentro de casa era fruto dos furtos de Kleber.
Através dos amigos ele conheceu Ratão, que gostou do jeito do rapaz e viu que poderia usá-lo nas diversas formas de trabalho ilícito que tinha montado na região.
Por vezes quase havia sido apanhado pelos policiais. Mas era esperto, e sempre conseguiu se safar. Mas tudo mudou com o assalto da velha. No dia seguinte duas viaturas começaram a fazer patrulha na área, forçando-o a ficar escondido. Foi quando Ratão sugeriu a mudança de ares.
Sua tia não desconfiou muito. Há tempos que queria um pouco de paz e distancia do sobrinho. Quando ele disse que iria visitar a irmã, ela apoiou a decisão com um grande sorriso nos lábios.
E lá estava ele, em volta com um povo sem graça e privado de poder cometer seus delitos, pois além de tudo a cidade era muito pequena, e qualquer tentativa de poder realizar qualquer assalto iria lhe incriminá-lo, e no momento ele tinha que manter os olhares longe da sua pessoa.
O som da pedra de dominó sendo esmagada contra a mesinha de madeira chegou até seus ouvidos, arrancando-o de seus pensamentos.
- Bati, pato! Gritou um dos caras da mesa.- Fechamos o raio, hehehe. Lambreta, lambreta ?- Ria ele com sua boca desdentada.
- Mas agora vamos à forra, Juvenal ? – disse um dos adversários.
Juvenal olhou para seu relógio e sacudiu a cabeça.
- Fica pra uma próxima, pessoar. Tá ficando tarde, e tenho um caminho longo pela frente. Não quero ser pego pelo lobisomem.
Kleber quase cuspiu a cerveja da boca com vontade de rir.
- Lobisomem? Vocês acreditam ainda nessas histórias? Perguntou Kleber não se contendo.
Juvenal se virou e encarou o rapaz com os olhos cerrados.
- Ocê num é daqui, né garoto?
- Não, sou da capital! Disse Kleber com o queixo erguido em sinal de superioridade.- Estou passando uns dias na casa da minha irmã.
- Pois se fosse você não iria demorar muito pra ir pra casa.
- Por causa do lobisomem? Disse Kleber sufocando um riso com as costas da mão.
- Escuta aqui, filho! Por essas bandas tem um bicho que anda durante as noite de lua cheia, como hoje, e posso te dizer que num é um bicho quarqué. É um bicho que perambula pelo nosso quintar, e se apropria das nossas criação. É um bicho que num tem medo de nada e que seus uivos congela o sangue nas veia de quarqué um. Se fosse ocê, num ficava se disfazendo das coisa que num conhece. Principarmente de uma coisa que num pertence ao mundo dos vivo.
- Como assim “dos vivo”, alguém já tentou matar essa tal criatura e não conseguiu?
- Sim, senhor! Foi isso mesmo que já tentaro fazê. Mas ninguém nunca conseguiu penetrar o couro do bicho. Nem com tiro, nem com faca, nem pau e nem pedra. Nunca conseguiram tirar uma gota de sangue daquele bicho. Dizem até que ele consegue sentir o cheiro de gente ruim. Já ficamos sabendo de pessoas que encontraram com a criatura e levaram uma sova daquelas. Pessoas que num eram muito boas e outras que num acreditavam que a criatura existia. É um bicho de que não se pode fugir e nem enfrentar.
- O senhor deve estar brincando comigo ? – disse Kleber olhando para o senhor na sua frente. Mas os o lhos de Juvenal não demonstravam brincadeira. Eram os olhos de alguém que já havia visto muita coisa na vida. Olhos experientes e matreiros.
Kleber olhou para as demais pessoas que estavam no estabelecimento, e todos prestavam atenção ao que estava sendo dito e encaravam Kleber de maneira hostil.
Era como estar rodeado de lobos. Observando cada movimento seu, esperando apenas o momento do ataque.
- Tudo bem, gente! Eu acredito em vocês. É que na cidade não temos a oportunidade de encontrarmos esse tipo de animal.
- Acho que está na hora de você ir pra casa, filho! Disse o balconista de maneira pouco amigável.
Kleber sentiu que era o melhor a ser feito. Tirou o dinheiro da carteira e pagou pelas bebidas.
- Tenham uma boa noite! Disse ele aos senhores que estavam ali.
Eles não responderam, e na verdade Kleber nem estava esperando que o fizessem. O melhor era ir para casa tomar um banho quente e ir para a cama.
A casa de sua irmã era um pouco distante do bar em que estava. Mas Kleber não estava com muita presa de chegar logo. Aqueles caras estavam ficando caducos. Bando de senis. Eles que acreditassem nas histórias malucas que inventavam.
Havia um modo de Kleber chegar mais rápido até a casa da irmã. Era por dentro de um pasto próximo. Não que ele quisesse chegar mais rápido em casa, mas era um excelente lugar para acender um baseado. Longe dos olhares curiosos do lugar.
Kleber pulou a cerca de arame farpado e se encaminhou para debaixo de uma árvore que ficava quase no meio do pasto.
A lua brilhava leitosa acima de sua cabeça. Uma linda noite de lua cheia. Ideal para namorar, ou queimar um baseado. Como ele não estava com nenhuma garota, o melhor era acender logo o bagulho.
Se acomodou junto ao tronco da árvore e tratou de acender seu companheiro. Logo nas primeiras puxadas começou a se sentir mais tranqüilo. Mais leve, solto e alegre. Um sentimento que só aquelas maravilhas podiam lhe proporcionar. Sabia que os olhos logo estariam vermelhos. Mas sempre podia colocar a culpa na cerveja. Sua irmã e seu cunhado não iriam desconfiar.
Um som abafado chegou até os ouvidos de Kleber. Que não deu muita atenção, por conta dos efeitos da maconha. Logo o barulho se tornou mais próximo. Sons parecidos com pisadas, só que mais suaves, mais macias, acolchoadas, como patas.
O grande vulto passou por Kleber, e parou. Kleber se engasgou com aquela visão. A criatura voltou seu enorme volume corporal na direção dele. Fungando o ar. Sentindo o aroma que estava ao seu redor. Sentindo o cheiro de Kleber. Era o maior cachorro que ele já vira. Um pastor-alemão gigantesco. Seus olhos encontraram os olhos do animal. Um amarelo-alaranjado penetrante. Kleber começou a duvidar que se tratasse de um cachorro. Talvez fosse o animal de que os caras do bar estavam falando. O lobisomem.
Ele sacou seu canivete automático, mas não teve de usá-lo, pois a enorme pata desceu sobre sua mão e lhe arrancou o canivete, junto com outros três dedos. O nó na garganta não lhe permitiu que soltasse nenhum som em busca de socorro.
O enorme animal se aproximou ainda mais de Kleber. Seu focinho quase lhe tocava o nariz. Seus olhos agiam como que imãs aos olhos de Kleber. Era impossível se desviar deles. A vontade do animal era maior que sua vontade.
Dizem que quando estamos próximos da morte um filme passa diante de nossos olhos. Kleber pôde ver esse filme através dos olhos do grande animal. Um filme de sua vida de maldades, brutalidades e crimes. A última imagem que lhe chegou aos olhos foram da pobre velhinha que tinha lhe atravessado o caminho. Viu-a tentando lhe repudiar com a bolsa e viu quando o canivete lhe penetrou na carne, fazendo com que a pobre senhora parasse de atacá-lo e se contorcesse de dor no meio da calçada.
Aquela imagem lhe revelou no que ele havia se tornado. Ele percebeu em que tipo de ser humano ele era agora. Talvez por isso ele não tenha conseguido lutar quando o grande animal enterrou os enormes dentes em seu pescoço. Foi uma morte rápida, quase indolor. Afinal, ele poderia até agradecer por esse desfecho derradeiro.
Nunca encontraram seu corpo, e sua irmã achava que Kleber poderia estar em qualquer lugar, já que tinha uma vida totalmente incerta, e os caras do bar não comentaram mais sobre aquela noite em que viram o garoto pela última vez. No fundo eles sabiam o que havia acontecido. Mas a coisa havia se tornado um segredo entre eles. Um segredo que eles compartilham apenas com a grande criatura e com a lua cheia, leitosa e imponente.
FIM
Apresentação
Junho 6, 2008Olá a todos! Muitos me conhecem por Charlie, mas também utilizo outros nomes pela Net, como Andy Dufresne. Gosto de escrever, ler, ver filmes, desenhar, e bater um bom papo com os amigos.
Aqui colocarei algumas coisas para poder compartilhar com quem possa interessar. Espero que agrade a todos.
Ganância
Junho 6, 2008Este conto sobre escrito de uma vez só. Já tinha a idéia na cabeça. Um dia sentei em frente ao computador e digitei tudo de uma vez. Foi a primeira vez em que isso aconteceu. E espero agrade a todos.
- Charlie/Andy
Augusto olhava impaciente os anéis de fumaça que subiam em direção do teto. Aquilo era uma prática que costumava fazer quando estava nervoso. E aquele era um momento de nervosismo. De pura adrenalina, como diziam aqueles caras que praticavam esportes radicais. Alguns círculos de fumaça se desfaziam antes de chegar ao teto, mas outros continuavam firmes até tocarem no reboco pintado de branco. Era uma forma de tentar colocar os nervos no lugar. Uma forma de tentar manter a calma. E calma era algo que lhe faltava naquele instante.
Primeiro foi sua esposa, que uma semana atrás o havia deixado. Ele foi trabalhar e quando voltou encontrou apenas um bilhete preso na geladeira com as últimas palavras de Marta : “Tentei suportar, mas não consegui.” Aquela cadela finalmente cumpriu as ameaças que havia feito durante os quatro anos de casamento. Mas será que ela nunca percebeu que ele era um homem de negócios ? Não podia estar 24 horas ao seu lado ? Tinha responsabilidades ? Será que era tão burra assim ? Mas tudo bem. Afinal, não tinham filhos e aquilo facilitava as coisas. Pelo menos não precisava se preocupar com a pensão alimentícia .
E naquela manhã havia surgido a segunda bomba. Fora mandado embora da empresa em que estava há nove anos. Havia ganho o bilhete azul. Seu chefe o chamou na sala e disse que precisava de “sangue novo” na empresa. Bernardo Alves iria ficar no seu lugar. Um cara que ainda usava fraudas quando Augusto já estava cansado de trabalhar doze horas diárias no mercado de trabalho. Cretino. Desde que havia entrado para a empresa, há dois meses atrás, Bernardo estava de olho no posto de chefia que Augusto assumia. Pelo menos era assim que Augusto via as coisas. Trapaça, suja e simples. Só porque Bernardo havia feito mais cursos de informática e podia “montar” programas e formas de venda que levariam a empresa a ocupar um melhor lugar no mercado da computação. Mas aquele almofadinha iria se arrepender de ter se metido com ele.
Augusto tinha 53 anos de idade e uma grande bagagem nas costas. Não iria ser difícil de encontrar outro emprego. Ainda mais com os bons contatos que sempre teve no mercado de trabalho.
O cigarro chegou ao filtro e Augusto já podia sentir o calor chegar aos seus dedos. Virou de lado, amassou a bituca no cinzeiro e imediatamente pegou outro Marlboro e o acendeu com seu isqueiro prateado zippo importado dos EUA. Recomeçando assim seu ritual de círculos de fumaça.
Na manhã seguinte Augusto fez uma peregrinação às empresas que tivera contato durante seus anos de trabalho. Na esperança de que seus colegas lhe arrumassem alguma coisa. Na precisava ser de chefia, mas sabia que mais cedo ou mais tarde esse era o posto que iria conquistar. Mas ao chegar o final do dia a única coisa que havia conseguido era um “Se aparecer alguma coisa lhe avisamos”. Segundo seus colegas, Augusto estava numa idade crítica para conseguir emprego e sua capacidade estava superada. As empresas estavam mais interessadas em dar vagas para jovens que podiam contribuir mais com os negócios.
“Um monte de merda” era o que Augusto achava. Será que eles estavam com a mesma mentalidade de sua esposa ? Augusto não estava interessado em arrumar um lugar onde poderia se aposentar e ficar coçando o saco durante todo o dia sentado no sofá assistindo ao futebol ou aos filmes de “Sessão da Tarde” enquanto esvaziava uma lata de cerveja. Ele queria trabalhar. Era o trabalho que o motivava na vida. E aqueles imbecis não estavam querendo aproveitar a oportunidade de tê-lo em seu quadro de funcionários.
Esses também iriam se arrepender quando Augusto desse a volta por cima. Ah, iriam mesmo. Augusto iria fazer questão de passar de cabeça erguida por eles e telefonar dizendo poucas e boas sobre a oportunidade pedida. Bando de mal agradecidos, isso é o que eram. Gentinha sem visão de trabalho.
Duas semanas havia passado e Augusto não havia conseguido nada além de promessas. Muitas delas com ar de “Desculpe, chapa. Mas você já era. Seu tempo acabou. Dê lugar ao ‘sangue novo’.”
O consumo de cigarros havia aumentado de dois para quatro maços por dia. E seu quarto mais parecia uma sauna de tanta fumaça. Muitas vezes nem conseguia encontrar seu isqueiro no meio de tanta fumaça.
Apesar de ser um homem robusto, só na última semana havia perdido cinco dos seus noventa e dois quilos. As bolsas em baixo dos olhos eram visíveis. E isso acabava atrapalhando ainda mais as coisas. Pois lhe dava um ar de doente. “Você está bem, Augusto”, era o que diziam ao vê-lo. Claro que não estava bem. Precisava de um emprego para ficar bem, porra. Mas ninguém queria lhe arrumar um. O mundo estava cheio de pessoas falsas e sem coração. Onde estavam aqueles que ele havia ajudado no correr dos anos ? Onde estava a ajuda das pessoas que um dia ele ajudou ? Se bem que não foram muitas. Pois ele tinha que ganhar espaço no mercado de trabalho. Tinha que suar a camisa para a empresa. E isso muitas vezes significava ter que entrar em brigas feias por contratos novos. Mas todos tinham que ver que ele estava fazendo o que era certo. Tinha que lutar contra tudo e contra todos, porra. Não era a lei da sobrevivência ? A selva de pedra não funcionava assim ? Então para o inferno com todos aqueles ingratos. Mas não se daria por vencido. Iria conseguir um bom emprego. Sua avó costuma dizer: “As coisa ruins acontecem sempre em três etapas. Sempre em três.” Claro que Augusto nunca acreditou naquela papagaiada toda. A velha estava senil. Todo mundo podia ver.
Mas os dias passaram e Augusto não conseguiu progresso algum nas suas buscas. Tinha que fazer novos furos no cinto para segurar as calças. Já eram dez quilos a menos para as penas suportarem. Sua aparência estava horrível. Sua pele adquirira uma tonalidade amarela opaca. Como aquele que infernos presos ao leito de um hospital apresentam. Não se preocupava em se alimentar. Seu alimento eram os cigarros. Que já estava na casa dos seis maços e meio por dia. Não conseguia mais dormir direito. Apenas deitava na cama e iniciava seu ritual de lançar anéis de fumaça para o teto. Coisa que levava horas fazendo. Varava a madrugada naquele jogo solitário antes de dar pequenas cochiladas.
A única coisa que fazia, além de fumar, era tomar café. Pois sua garganta estava cada vez mais seca por conta da nicotina. E pela manhã um acesso de tosse tomava conta de seu corpo. Eram acessos tão fortes que muitas vezes ele tinha que deitar, pois as dores no estômago não o deixavam ficar em pé. Ele sentia uma gosma que lhe chegava até a boca, mas não conseguia cuspir. Era algo pastoso, como pasta de amendoim que descia e subia. Lembrava mais uma vaca ruminando o capim que comera durante o dia.
Aquela manhã não fora diferente das outras. Depois de um grande acesso de tosse Augusto foi preparar um café para iniciar mais um dia de buscas. Seu ânimo havia caído muito. Já não tinha endereços para ir. Havia visitado todas as empresas de vendas de artigos de computação que conhecia.
Já não se importava em encontrar algum outro emprego que não fosse na sua área. Mas as filas eram sempre enormes e a concorrência era assustadora. Nunca imaginava que um dia iria passar por situação semelhante. Apesar do dinheiro que ganhou por seus serviços prestados nos últimos nove anos, Augusto queria um emprego. Imaginar ter que ficar sem fazer nada o deixava trêmulo e angustiado.
Havia um tempo em que a experiência era uma coisa cobiçada. Mas parecia que aqueles tempos estavam há anos luz da realidade atual. Onde muita coisa fora deixada para trás. As pessoas se sujeitavam a condições vergonhosas. A tratamentos de submissão. Porque se a pessoa se recusasse a fazer o serviço, com certeza iria encontrar mais de oitenta pessoas querendo o mesmo emprego e ganhando a metade do salário.
Augusto sentia a cabeça rodar e a vista arder. Tomou um gole do café amargo que preparara e colocou um cigarro na boca. Tateou os bolso para pegar o isqueiro zippo, mas não o encontrou. “Merda. Deve estar no quarto” pensou Augusto. Mas ao vasculhar o quarto não o encontrou. Olhou em todos os lugares e não o achou. “Devo ter perdido pelo caminho”, pensou ele. Mas tinha a sensação de que o havia usado na noite anterior.
Já que estava no quarto se arrumou para mais uma nova tentativa. Iria até a banca da esquina e compraria aqueles cadernos de emprego onde poderia circular as melhores propostas e piores também. No momento só precisa de alguma coisa para fazer. Com o tempo as coisas iriam se ajeitar. Tinha certeza disso. Pegou uma caixa de fósforos no armário e ascendeu mais um companheiro. Deu uma longa tragada e contemplou o cigarro enquanto soltava a fumaça, que havia feito um pequeno tour em seus pulmões. “É , companheiro. Por enquanto somos só nós dois.”
Depois de comprar o Caderno de Empregos, Augusto se dirigiu a estação de metrô mais próxima. Tentaria um endereço que achara nos classificados.
Não eram 07:30 hs e a plataforma já estava lotada. Como, afinal de contas estava todos os dias naquele horário. Augusto tentava se manter numa posição agradável para tentar embarcar. O primeiro metrô parou e a multidão agiu como gado sendo levado para o matadouro. Empurrões daqui e dali, enquanto a massa humana tentava se equilibrar.
Augusto não conseguiu embarcar e ficou na frente para o próximo metrô. Muitas pessoas se acotovelavam atrás dele. Mas no próximo ele teria que ir, pois não queria chegar atrasado no endereço. Onde certamente já existia um fila enorme, dobrando a esquina.
Logo os faróis amarelos apareceram na curva da estação e Augusto deu um passo à frente da linha amarela de segurança. O barulho do metrô se aproximando se tornava mais audível. E com isso a multidão também se aproximava mais da plataforma. Num total hipnotismo. Corpos se juntando como se fossem se fundir. O vagão se aproximava com velocidade e seus faróis eram como olhos flamejantes. Augusto teve tempo apenas de ouvir alguém gritar “Ei, não empurra não”. Tentou olhar para trás, mas a massa humana se projetou para frente, lançando seus vários corpos contra Augusto, que não conseguiu manter o equilíbrio de seu corpo na plataforma e mergulhou para os trilhos no exato momento em que o vagão passava por ali. Um grito de terror foi ouvido e depois o barulho de ossos sendo esmagados. Uma senhora levou as mãos à boca para segurar o grito, enquanto outra moça colocava o desjejum em cima do sapatos de um jovem executivo com sua pasta 007. O cheiro de freios subiu dos trilhos e logo vários agentes do metrô estavam correndo em direção ao local onde o vagão havia parado.
Pouca coisa sobrou de Augusto, que teve seu corpo dilacerado e arrastado por quase dez metros. Uma morte praticamente instantânea. Algumas pessoas desmaiaram, outras passaram mal, e algumas simplesmente balançaram as cabeças e se dirigiram para as saídas, pois sabiam que as operações ficariam paradas e tinham que chegar no horário certo para manterem seus empregos. Pois os patrões não estavam muito interessados em saber que o atraso se devia a uma morte horrenda no metrô. Aquele era um mundo louco, mas todos tinham que cumprir seus papéis na grande peça da vida.
No interior de um velho carvalho uma criatura andava entre prateleiras cheias de objetos. Objetos variados e de todos os tipos. Pertencentes a pessoas de todas as idades, credos e classes sociais. A criatura usava um avental sujo de médico. Não tinha cabelo e seu sorriso mostrava uma fileira de dentes pontiagudos, como os dos canibais. Olhos frios e matreiros. Acariciava com grande alegria um objeto novo que tinha nas mãos pequenas e que agora era parte de sua enorme coleção. Com todo carinho ele colocou o pequeno isqueiro zippo prateado no lugar em que estava reservado.
FIM
Publicado por charliesants
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