Conto escrito especialmente para o Overlook Hotel, e para seus hóspedes. Minha primeira fanfic para o grupo.
Andy/Charlie/J.C.Santana
SURPRESA
Por Andy Dufresne – escrito em 2003
Andy estava preocupado com o silêncio que se fazia no hotel. Por
duas vezes pensou em ter ouvido ruídos estranhos, como grunhidos de
um animal selvagem e um chiado constante, como uma grande panela de
pressão prestes a estourar. O frio se tornava mais intenso ao passar
dos dias, e isso incomodava ainda mais o jovem Andy. A calefação não
estava funcionando, forçando-o a procurar roupas mais quentes.
- Droga, isto aqui está mais frio que minha cela em Shawshank -
disse Andy colocando outro par de meia para esquentar os pés.
Foi então que ele percebeu outro ruído chegando aos seus ouvidos.
Um zumbido forte e assustador, embora um pouco abafado. O zumbido
vinha da janela, e quando Andy olhou em sua direção prendeu a
respiração. Todo o vidro da janela estava tomado por centenas de
vespas.
- Deus meu ! O que é isto !- disse Andy se levantando e indo se
encostar na parede, vendo horrorizado as vespas se debatendo e
atropelando umas às outras, como se estivessem procurando uma
passagem para dentro do quarto. E Andy achou que era isso mesmo que
elas queriam. Entrar dentro do quarto e atacá-lo com seus ferrões.
Ele sentia a raiva delas através do zumbido que elas produziam.
Andy não pensou duas vezes, abriu a porta e correu para o
corredor, tentando pensar em uma maneira de se livrar das vespas.
O corredor nunca pareceu tão estreito para Andy. O zumbido das
vespas enchiam sua cabeça. Ele saiu batendo em todas as portas das
suítes, mas ninguém apareceu. A impressão que dava era de que
realmente não havia mais ninguém no hotel.
Ao descer para o salão as preces de Andy pareceram ser ouvidas.
Próximo ao relógio estava Firestarter, tomando notas em um bloco de
papel.
- Ei, Fire ! Você precisa me ajudar, cara – dizia Andy sacudindo
o amigo pelos ombros.
- Ei, ei, ei ! Calma lá, rapaz. O que está acontecendo ?
O suor já brotava da testa de Andy. Ele era um sujeito que
transpirava com muita facilidade.
- Vespas… centenas delas… lá na janela do meu quarto. Parecem
enlouquecidas. Estão a ponto de estourar o vidro e invadir o quarto
e…
- Acho que você está exagerando um pouco, Andy – disse
Firestarter estranhando a história. Não deve haver muitas vespas
voando por aí neste frio que está fazendo.
- Não estou exagerando, Fire. Se não acredita venha até o meu
quarto e veja por você mesmo – disse Andy olhando fixamente para seu
amigo Fire.
Fire percebeu que alguma coisa estava acontecendo para o amigo se
comportar daquela maneira.
- Tudo bem, Andy. Vamos até lá dar uma olhada.
Os dois subiram e quando Fire entrou no quarto viu que Andy não
estava enganado. Centenas de vespas estavam agrupadas no vidro da
janela. Pareciam uma onda viva preta e amarela. O vidro da janela já
estava começando a rachar com o peso das vespas. O que mais
impressionava era o zumbido louco que elas faziam.
- Está vendo agora que eu não estava mentindo ? -Andy parecia
querer a aprovação do amigo de que não estava enganado.
- É, cara. Você verdadeiramente não estava exagerando, Andy boy.
- E agora. Elas estão quase entrando. O que vamos fazer ?
O som que as vespas faziam era realmente assustador. A impressão
que se tinha era que elas estavam “falando” com os dois. “Esperem só
mais um pouco, e verão o que podemos fazer”.
Andy tinha uma certa aversão a vespas . Quando ele tinha 12 anos
estava brincado com suas bolinhas de gude com um amigo e de repente
uma vespa pousou no braço do amigo. “Ei, Andy! Mata ela pra mim !”
pediu o amigo, e Andy sempre solícito preparou um grande tapa para
dar no pequeno inseto. Só que Andy não contava com a rapidez da vespa
e quando baixou a mão a vespa voou antes de Andy acertá-la. O tapa
porém acertou o braço do amigo em cheio, deixando uma grande marca
vermelha.
Andy pôde acompanhar o vôo da vespa, que a princípio parecia que
ia embora, mas de repente ela começou a fazer o contorno no ar, como
um bumerange, e voou na direção de Andy. Ele ficou alí parado,
surpreso com a atitude do inseto. Ele achava que ela logo iria fazer
uma nova curva e tomar outra direção. Mas não foi isso que aconteceu.
A vespa foi se aproximando cada vez mais. Andy estava petrificado,
pois nunca tinha visto aquilo, era como um avião kamikaze, prester a
acertar o alvo. O inseto foi se aproximando…se aproximando…e
cabum… acertou Andy bem no olho esquerdo. A dor explodiu na cabeça
de Andy como fogos de ano novo. Um dor intensa, lancinante, tomou
conta de seu olho esquerdo. Ele imediatamente levou as mãos ao olho
ferido e não teve como conter as lágrimas.
- Andy ! O que foi que aconteceu, cara !- quis saber o amigo que
na hora do choque da vespa com o olho de Andy estava mais preocupado
com o ardume do tapa que levou.
- Foi a maldita…vespa…ai,ai,ai…a puta me acertou bem no
olho. Merda ! Tá doendo muito – Andy gemia sem nenhuma vergonha do
amigo.
- Deixa eu dar uma olhada – pediu o amigo.
Andy tirou as mãos de cima do olho, e tentou abrí-lo. O esforço
era muito doloroso. Ele mal conseguia enxergar com o olho direito por
conta das lágrimas que tornavam as coisas totalmente fora de foco,
quanto mais do olho atingido, que naquele momento crescia como um pão
no forno, se transformando numa grande bola vermelha disforme.
O amigo o ajudou a ir até sua casa, que ficava próxima dalí e o
conduzio ao cavalete de água, onde Andy permaneceu uns bons vinte
minutos deixando a água cair sobre o olho. Isso de certa forma
anulava a queimação causada pela picada.
Depois desta experiência Andy aprendeu a ter um certo “respeito”
pelas vespas e todos os insetos que pertenciam a sua família, como
abelhas e marimbondos.
Foi o zumbido que fez com que Andy voltasse da lembrança daquele
terrível dia de sua infância. O zumbido, e depois a forma com que
Firestarter estava olhando as vespas.
Fire estava paralisado olhando as vespas com os olhos muito
abertos. Andy pensou que ele poderia estar se sentindo mal. Mas não
era um olhar de surpresa, como o dela naquele dia de sua infância,
mas era um olhar fixo. Como se Firestarter estivesse querendo se
comunicar com as vespas através dos olhos.
- Ei, Fire ! Você tá legal, cara !
Firestarter não respondeu ao amigo, ao invés disto ele começou a
tremer um pouco. Os olhos fixos nas vespas, como que querendo
hipnotizá-las. O rosto começou a ficar avermelhado. Andy podia ver as
têmporas latejarem. E percebeu que alguma coisa muito estranha estava
prestes a acontecer.
Andy olhava com espanto a cena que se desenrolava à sua frente. Firestarter estava completamente concentrado nas vespas na janela. O tremor em seu corpo estava se intensificando, e Andy começou a ficar preocupado. Pensando que o amigo poderia estar tendo um ataque qualquer.
- Ei, Fire ! O que está acontecendo, cara ! Quis a saber Andy, tocando no ombro do amigo.
- Não toque em mim, Andy – disse Firestarter sem desviar os olhos das vespas. Sua respiração estava mais ofegante.
Andy retirou a mão e olhou com surpresa para o amigo. Não estava entendendo o que estava acontecendo, e nem o por que da reação de Firestarter. Aquilo não estava se encaixando, não da maneira que as coisas deveriam se encaixar. As coisas estavam muito estranhas naquele hotel. E a cada dia novos fatos se tornavam mais estranhos ainda.
Um odor de repente invadiu as narinas de Andy. Era um cheiro leve, ainda fraco, mas conhecido. Um cheiro de algo queimando. Andy olhou em volta para ver de onde estava vindo aquele cheiro, e então seus olhos encontraram a origem do odor. As vespas. Pequenas linhas de fumaça estavam saindo de seus minúsculos corpos. Linhas de fumaça que aos poucos estavam se tornando mais intensas. Andy sentiu o queixo cair quase até os joelhos e ficou perplexo. Nunca tinha visto nada igual em toda sua vida. De repente algumas vespas começaram se incendiar, transformando-se em pequenos corpos incandescentes . Outras começaram a explodir, lançando seus fluidos no vidro.
Andy estava ao mesmo tempo apavorado e fascinado. Olhou para Firestarter e percebeu que ele era o responsável por aquele acontecimento. Meu Deus como alguém podia fazer aquilo ? Que poder incrível. Definitivamente Andy queria morrer amigo de Firestarter. Não gostaria de arrumar uma briga com ele.
O que mais impressionava Andy era que as vespas apesar de estarem sendo destruídas não deixavam de golpear o vidro com seus ferrões, parecendo mini-britadeiras. O zumbido também se intensificou. Pareciam dizer “Não adianta tentarem nos parar, nós vamos entrar e acertar vocês com nossas armas, chapinhas. Esperem só pra ver”.
Andy viu que Firestarter franziu mais o cenho, na certa se concentrando mais. A têmpora latejando visivelmente. As vespas se transformaram em uma única bola de fogo e o vidro da janela, já fragilizado pelos golpes e pelo frio explodiu, lançando cacos de vidro incandescentes para todos os lados da suíte. Junto com os cacos várias vespas se espalharam pelo aposento, como um bando de vaga-lumes. Mas não representavam mais nenhum perigo, pois estavam todas carbonizadas. Tomado pelo esforço e cansaço Firestarter se apoiou numa cadeira e levou a mão direita na têmpora, massageando-a.
Cara, o que foi que você fez ? Perguntou Andy fascinado com o que viu.
Eu apenas quis esquentar os ânimos delas – respondeu Firestarter com um sorriso irônico.
- Acho que você não apenas esquentou os ânimos, mas botou fogo na situação, literalmente falando.
Os dois fizeram um breve silêncio, que foi quebrado por Andy.
Cara, mais que coisa mais louca. O que foi que deu nesses bichos para agirem assim ?
- Bem, Andy. Acho que você está na hora de você saber algumas coisas – Firestarter olhava Andy de maneira muito séria.- Está preparado para ouvir ?
- Pode apostar que sim, camarada. Depois do que vi aqui acho que preciso entender algumas coisas.
Eles estavam terminando de colocar um papelão na janela, improvisando um vidro para o que havia explodido. Andy sentia os corpos, agora carbonizados, das vespas sob suas botas. Pareciam grãos de café se esfarelando com os golpes de um pilão.
Depois de terminado o serviço, Andy chamou Firestarter para se sentar em uma cadeira de espaldar.
- Muito bem, camarada ! Se quiser, pode começar – disse Andy, se acomodando na cadeira ao lado da de Firestarter.
A ansiedade estava aumentando. Andy não sabia se era por conta das vespas ou se por conta do próprio Firestarter.
Bom , Andy ! O lance é o seguinte – Firestarter fez uma pausa, colocando as duas mãos colocadas uma na outra na boca, como se preparando para fazer uma oração. – As coisas que acontecem neste hotel, não são coisas que acontecem em qualquer hotel .
Como assim, eu não estou entendendo !
É o seguinte. Aqui , claro, houveram alguns escândalos. O Overlook sempre foi rodeado das atividades mais diversas. Tanto políticas, como de personalidades famosas das mais variadas camadas da sociedade. Mas não é só isso. Existem coisas muito mais complexas entre essas paredes do que você imagina – ele fez uma nova pausa, aquilo incomodou um pouco Andy, pois ele queria saber logo o que o amigo queria dizer com aquilo.
O que você achou do que eu fiz com as vespas ?
Cara, eu achei… sei lá o que eu achei. Nunca vi nada parecido em toda minha vida.
Pois é. Aqui no hotel existem outras pessoas que podem fazer coisas muito parecidas com as que eu fiz. Algumas até podem fazer coisas maiores e más – Firestarter disse esta última frase piscando o olho.
Andy ficou imaginando como estava cercado de pessoas não tão normais quanto ele imaginava. Pessoas que poderiam simplesmente queimá-lo vivo. Este pensamento causou um arrepio em sua espinha.
Coisas más, você disse ?
Isso mesmo. Existem pessoas que podem ler sua mente, influenciar suas ações, confundir seus pensamentos, queimá-lo e fazer você sentir dor, muita dor. Você nem imagina como eles adorariam vê-lo gritar e se espernear, implorando por sua vida – nova pausa.
Andy estava se sentindo desconfortável com aquela história. Estava com medo das coisas que estava sentindo. Dos sentimentos que estavam sendo despertados com aquelas informações.
Como se tivesse percebido o pânico nos olhos do amigo, Firestarter tentou tranqüiliza-lo.
Mas não são todos aqui que são maus.
Ainda bem ! Estava começando a considerar a idéia de ficar trancado no quarto.
Mas… mesmo sabendo que existem algumas pessoas boas, eu não confiaria em todo mundo.
Por quê ?
Porque alguns podem simplesmente se “passar” por bonzinhos – Firestarter deixou escapar um pequeno sorriso. Parecia se divertir com o desespero do amigo.
Cara, você tá me assustando – disse Andy, com os olhos arregalados de espanto.
Calma, Andy ! Não quero assustá-lo mais do que deveria. É que as vezes eu me empolgo – disse Firestarter, exibindo outro sorriso matreiro.
Andy olhou em volta tentando mudar o assunto, aquilo o estava apavorando de verdade.
Espero que o papelão não caia com a tempestade – disse Andy apontando para a janela.
Depois a gente vê se meu pa…o zelador troca o vidro – Agora era Firestarter que parecia meio desconfortável. Andy percebeu que alguma coisa de errada estava acontecendo.
Ei, Fire ! O que você está escondendo, cara !
Tudo bem. Acho que não posso esconder isso por mais tempo. Talvez esteja na hora de contar mais alguma coisa sobre mim – Fire se endireitou na cadeira e olhou sério para Andy.
Meu primeiro nome é Danny, e o zelador deste hotel é meu pai – Firestarter abaixou um pouco os olhos, meio constrangido.
Seu pai é o Jack Torrance ? – Perguntou Andy totalmente surpreso.
Sim, eu sou Danny Torrance, o filho de Jack Torrance.
Cara, eu pensei que o filho dele estava desaparecido. Até ouvi algumas pessoas procurando por ele pelos corredores do hotel. Alguns disseram até que ele havia fugido do hotel com a mãe dele há vários anos atrás.
É verdade. Eu consegui sair daqui com minha mãe, mas voltei, minha mãe voltou também. Mas já faz um bom tempo que ela não me via. Eu andei por muitos lugares, procurando algumas respostas. E finalmente voltei.
Por quê ?
Porque eu quero meu pai de volta – disse Firestarter com um olhar cortante. De pura fúria.
De volta ? Não estou entendendo.
Dentre as coisas e pessoas que lhe falei, Andy. Você tem que tomar cuidado principalmente com este hotel. Foi “ele” que levou me pai para longe da gente. “Ele” que tentou destruir minha família. “Ele” invadiu o corpo e a mente de meu pai, enganando-o e tentando jogá-lo contra mim, e minha mãe. Este hotel tem poderes incríveis. Se utiliza de todos os seus artifícios para envolver os hóspedes. Mas ele tem medo de mim. Já tinha antes, e agora que eu estou mais forte e posso controlar melhor meus poderes ele sente mais medo ainda. Eu formei uma sociedade com pessoas com poderes para podermos lutar contra o hotel. Esta sociedade é a SFF.
Já ouvi dizer. Vocês andaram pedindo algumas mudanças no hotel.
Na verdade era uma forma de despistar o nosso verdadeiro intuito. Que é o domínio sobre as forças que agem neste hotel. Só assim poderei salvar meu pai, e também outras pessoas que estão se deixando levar pelo hotel, eu sinto isso. “Ele” precisa da energia de pessoas especiais para poder sobreviver.
Andy estava impressionado com aquilo tudo. Precisava de tempo par poder pensar um pouco a respeito de tudo aquilo. Um grande nó estava se formando na cabeça de Andy.
Não esqueça, Andy. Tome cuidado com as pessoas que encontra. E principalmente com o hotel. Ele tem muitos truques para atrair as pessoas e depois acabar com elas. Fique de olho , Andy. Não se deixe enganar. Não confie no Overlook.
Andy pretendia seguir o conselho do amigo. Iria tomar mais cuidado com as pessoas e principalmente com o hotel Overlook. Agora que Firestarter havia dito destas coisas, ele compreendia melhor alguns momentos que ele vivera no hotel. Não, ele não estava disposto a se entregar aos desejos do Overlook. Havia passado por muitas coisas ao longo dos seus dias para acabar servindo de adubo para um hotel mal-assombrado. E se para isso ele teria que lutar contra o hotel, então, que a luta começasse.
FIM