Caros amigos,
Este é meu conto mais recente. Espero que gostem.
- Charlie
Ele ansiava por não esperar demais. Nas últimas vezes as coisas tinham ficado mais demoradas. Talvez sua fome é que tinha se tornado maior, muito maior, e talvez fosse isso que o deixava mais ansioso. Tinha que saciar a fome. Sua imensa fome. Uma fome que o devorava por dentro.
Mas sabia que tinha de ter cautela, muita cautela. Essa ânsia por comida estava deixando de ser controlada. Mas era necessário manter a calma. Senão tudo poderia se perder. Um animal precisa ter paciência e estratégia para poder apanhar seu alimento. Os grandes felinos eram criaturas fantásticas na arte de caçar. Ele tinha que fazer o mesmo para conseguir seu alimento. Tinha que ser um bom estrategista, além de ser cauteloso e rápido.
Suas presas poderiam se assustar se seus movimentos fossem feitos de uma maneira mal pensada. Caso isso acontecesse, seria necessária uma paciência ainda maior para poder apanhar a próxima vítima. Não poderia correr o risco de ficar muito exposto. De afugentar seu delicioso alimento. Isso aumentaria ainda mais sua fome. E ele não estava disposto a enfrentar essa fome tamanha. Se fosse obrigado a isso, teria certeza de que sua sanidade não estaria mais presente. Se é que isso, de fato, já não tinha acontecido.
A fome era algo impressionante. Ela era capaz de transformar qualquer um. Tudo se tornava possível para saciar esse desejo. Tudo seria tentado. Poderia até levar à própria morte.
Já fazia algum tempo em que começou a enfrentar esse desejo de apaziguar o sintoma, que o corpo lhe pedia tanto. No começo, até tentou controlá-la, mas aos poucos aquele desejo foi se tornando maior, mais dominante, mais enlouquecedor.
Na época vagava em busca de qualquer coisa que lhe fosse comestível, que não oferecesse muito esforço para obter. Latas de lixo, geralmente ao lado de alguns comércios, eram sua principal fonte de busca. Mas aos poucos, aqueles alimentos já não o estavam satisfazendo. A fome começava a lhe apertar muito mais as entranhas, como uma grande morsa. Por vezes a sensação que tinha era de que iria colocar as próprias tripas para fora. Tamanha era a pressão que vinha de dentro do corpo.
Foi numa tarde fria, sentado no banco da praça que ele pôde observar o maravilhoso ataque daquele gato. Um ataque rápido e preciso no meio daquele bando de pombos. O felino havia se escondido por trás de uma árvore, e quando os pombos menos esperavam, o gato pulou sobre um deles, fincando os pequenos dentes pontiagudos em seu frágil pescoço, matando a ave instantaneamente.
Aquela visão havia mudado seu modo de pensar. Ele tinha que agir conforme o gato. Para tanto, ele começou a “treinar” com os pombos. Ali havia muitos pombos. Aves desprezíveis. Sempre incomodando os que paravam nos bancos para uma pausa no cotidiano. Aqueles arrolhos perturbadores, transformando sua cabeça num grande amplificador. Sem contar com seus excrementos, que pareciam mísseis teleguiados.
As aves ficavam tão descuidadas com as guloseimas que lhe eram lançadas, que não era difícil de serem capturadas. Aos poucos ele foi se tornando hábil na captura dos pombos. Alguns que o viam fazendo aquilo o tomavam como louco: “Coitado, esse não tem mais jeito”, e virando a cara o deixavam com a pequena presa segura nas mãos.
Foi nessa época que ele começou a provar da carne das nojentas aves. Mas a carne não lhe agradava muito. O gosto não era de todo ruim, mas não era o que estava procurando. Aquela substância não lhe dava energia suficiente. Ele precisa de um outro tipo de alimento para lhe manter forte e disposto.
Certa vez ele estava lendo uma matéria em uma revista velha, que o dono de um sebo lhe deu, onde falava de uma tribo de canibais, devoradores de homens. E a matéria dizia que os índios canibais tinham uma grande preferência à carne humana porque essa lhe dava uma energia muito maior do que qualquer outra carne. Além de ser mais saborosa, na opinião dos pequenos devoradores de homens.
Os canibais atribuíam poderes mágicos conquistados através da ingestão de carne humana. Poder esse que prolongava a vida de quem a consumia. Quem sabe até poderia se alcançar a eternidade. E isso não seria maravilhoso? Ser imortal? Claro que era. E isso era o que ele estava disposto a fazer. Comer carne humana para alcançar a imortalidade.
Tendo determinado esse novo objetivo, ele começou a procurar uma vítima apropriada para seu primeiro ato de canibalismo. Seu primeiro alvo foi um mendigo, que dormia próximo de onde ele perambulava. Seria fácil atrair a atenção do mendigo, pois esses indivíduos fariam qualquer coisa por uma boa garrafa de cachaça.
A armadilha estava pronta, agora era só esperar o peixe morder a isca. E ele mordeu. Não foi muito difícil. Bastou balançar a garrafa na frente da vítima e levá-la para um beco próximo e o acertar na cabeça com um porrete. O mendigo nem chegou a ver o que lhe aconteceu, pois estava com os olhos fechados, entornando a bebida pelo gargalo. O corpo despencou ao chão e não ofereceu nenhuma resistência. O local era totalmente ignorado pelos demais curiosos. Muitos faziam questão de passar longe do beco, com medo de serem assaltados ou ameaçados pelos pivetes e moradores de rua. Assim, ficou fácil para ele cortar o mendigo, lhe invadir as entranhas e lhe retirar os órgãos, para saboreá-los ainda quente. A sensação era diferente de tudo que já havia experimentado até então.
Mas, ao longo dos dias nada de novo lhe acontecia. Já havia experimentado quatro vezes o sabor da carne humana, e nenhuma mudança, além das já esperadas, após uma boa refeição. Nada que o fizesse se tornar mais imortal. Algumas dores haviam passado, as forças estavam voltando aos poucos, mas nada comparado ao que se achava ser um caminho para a imortalidade. Logo uma outra matéria lhe trouxe a questão que o deixava em dúvida. A qualidade do alimento. O problema estava na qualidade da carne.
Os mendigos não eram boas fontes de alimento. Sua carne não prestava para seus propósitos. Era uma carne estragada, pobre. Maltratada pelos vários vícios de seus donos. Ele tinha que arrumar uma outra fonte de alimento. Um alimento mais saudável.
A matéria alertava sobre as diferenças de se consumir um alimento fora dos padrões de saúde. E quanto mais saudável fosse a fonte, melhor as propriedades de saúde do alimento. Portanto, a partir daquele momento só lhe serviria carne de primeira. E começou a traçar uma maneira de saciar a fome e alcançar seu intento.
Nos primeiros dias que se seguiram à procura da uma nova fonte de alimento, a fome voltou a se fazer presente. Ele havia tido um certo controle, enquanto se saciava da carne dos mendigos. Mas conforme foi deixando de consumir a carne, a fome foi se tornando mais agressiva. Ele começou a se sentir mais fraco, e o raciocínio também começou a ser atingido. Pois, sem alimento o cérebro começou a lhe pregar peças e a lhe cobrar uma assistência maior. Delírios e pesadelos começaram a povoar sua mente. Muitas vezes não sabia se estava acordado ou dormindo. A fome era a responsável por o deixar assim. A sanidade se extinguindo, escapando entre os dedos como areia.
Foi numa noite fria que a nova fonte de alimento lhe apareceu. Ele perambulava entre os becos procurando algo nos sacos e latas de lixo, como fizera durante tanto tempo da sua desprezível vida, que ele viu aquelas pessoas se acomodando em fila. Vários mendigos se preparando para receberem algo. Outras pessoas se aproximavam deles e lhes entregavam um marmitex. Ele se aproximou da multidão e procurou ver o que estava acontecendo.
Conseguiu ouvir um trecho de conversa entre dois mendigos: “Puxa, não via a hora de receber a sopa. Minhas tripas estavam dando nó”, “As minhas também. Essas pessoas tem um bom coração. São pessoas puras”, comentou o outro. E foram essas palavras que ficaram ecoando em sua mente: “Pessoas puras”. Sim, a melhor refeição, de fato, não era a sopa, mas sim as “pessoas” que serviam a sopa. Ele precisava provar-lhe a carne para saber se realmente havia alguma diferença. Se as “pessoas puras” tinham um gosto melhor e diferente. Ao simples fato de “pensar” na carne sendo mastigada por seus dentes, a fome também se manifestou contorcendo-lhe e lhe mordendo por dentro. A saliva pingava de seus lábios, como baba de um cão raivoso.
A investigação não foi demorada. Depois de conversar com mais alguns moradores de rua ele ficou sabendo que aquele pessoal da sopa aparecida duas vezes por semana, durante o horário noturno para distribuir algumas quentinhas para os necessitados. Durante os dias que separavam a próxima entrega, ele ficou matutando um modo de poder agir. A fome continuava lhe apertando de todos os lados, mas ele tinha que se concentrar para resolver a questão o mais rápido possível, ou acabaria louco com as mordidas, arranhadas e compressões internas. Sem contar com as pontadas na cabeça, que se tornavam cada vez mais fortes. Numa trégua da sua terrível dona, a fome, ele conseguiu manipular a ação que usaria na noite seguinte. Passou tudo, tim-tim por tim-tim, e ficou aguardando o momento exato para agir.
Caia uma garoa fina na noite fria. Ele ficou encolhido, aguardando sua presa se aproximar. Logo ouviu o barulho do carro estacionando próximo do beco. E em instantes uma fila já começava a se formar ao lado do veículo. Ele permaneceu no mesmo lugar, tremendo um pouco, pelo efeito da garoa, mas principalmente pela excitação do momento.
Aos poucos a fila foi diminuindo, restando poucos indivíduos. Ele saiu um pouco mais do beco, deixando seu corpo à mostra na noite fria. Mancava um pouco, e gemia baixinho. Aqueles sons chamaram a atenção de uma das jovens que estava distribuindo a sopa. Preocupada, ela foi até o mendigo agonizante ver o que poderia fazer. Pessoas de bom coração se preocupam muito com os seres que estão precisando de ajuda. Aquela era a oportunidade que ele estava esperando.
- Você está bem? Quis saber a jovem
- Um pouco… fraco.
- Tenho uma sopa que irá lhe restaurar as forças – disse a jovem se abaixando.
- Obrigado! Disse ele com mesura. – Será que tem um pouco para meu cãozinho? Ele está muito quietinho, acho que está muito doente.
- Pobrezinho! Onde ele está? – quis saber a preocupada voluntária da sopa.
- Ali, atrás da caçamba. Por favor, dê uma olhada nele. Estou muito preocupado. Ele ainda é filhote, e meu único companheiro.
- Claro que olho, pobrezinho – e se dirigiu ao fundo do beco.
Ao se aproximar da caçamba ela notou um monte de cobertas e panos amontoados. O pobre animal deveria estar enrolado nas cobertas. Abaixou-se e começou a revirar as cobertas.
- Ei, cãozinho? Você está bem?- nenhum movimento entre as cobertas. – Ele não está… – e a frase nunca foi terminada. O porrete lhe desceu violentamente na cabeça. Causando traumatismo craniano e levando-a a morte.
Depois do golpe ele rasgou-lhe o abdômen, retirando rapidamente alguns órgãos e enrolou o corpo nas sujas cobertas. Deixando assim o local e desaparecendo na chuva fina que caia insistentemente na cidade.
Ao atingir um kilômetro de distância ele entrou em outro beco, pois a fome já se manifestava de maneira altamente agressiva. Não dava mais para esperar, ele tinha que saciá-la o quanto antes. O “cheiro” da carne o estava deixando louco. Desembrulhou os panos maltrapilhos, que escondia os órgãos tão desejados, e ficou a admirá-los por um instante. Era maravilhoso. A coloração era totalmente diferente dos órgãos dos mendigos que ele havia vitimado. Era uma coloração mais acentuada. Mais “viva”. Mais exuberante. A sabia lhe encheu a boca e começou a transbordar. Seus dentes cravaram a carne macia e uma explosão de delírios e êxtase lhe invadiu a cabeça. Manjar dos Deus. Sim, aquilo era totalmente diferente. Ele podia sentir a vivacidade tomando conta de seu corpo. O sabor, o cheiro, tudo era prefeito. Era aquilo que estava faltando para que ele alcançasse a imortalidade. Se Deus criou a carne, e lhe deu a vida. Através da carne ele iria “ganhar” mais vida. O jato de esperma, que agora lhe enchia das calças não foi notado de imediato. Ele só se daria conta daquilo depois, quando o líquido já houvesse endurecido o pano.
Seus companheiros notaram a falta da amiga somente vinte minutos mais tarde. E como não a encontraram, chamaram a polícia. O corpo foi encontrado 1h30m depois.
No dia seguinte algumas manchetes de jornal traziam a notícia: “Jovem voluntária, de 19 anos, é encontrada morta depois de distribuir sopa a indigentes. Polícia não tem pistas do assassino”.
Esse não foi o único caso de jovens serem encontradas sem os órgãos. O caso acabou virando um desafio para a polícia, que tentava de todas as maneiras descobrir o responsável dos crimes hediondos. Com toda a ação da polícia em encontrar o assassino, o cerco estava se fechando, e fazendo com que seus ataques ficassem mais difíceis. Mas agora ele não poderia mais parar. A fome não iria permitir. As sensações que tanto esperava já começavam a aparecer. O cansaço era menor. A vitalidade era sentida de maneiro assustadora. Portanto, ele tinha que continuar com seu propósito. Mas tinha que tomar cuidado, muito cuidado. O perigo se mostrava mais presente, mais próximo. Mas o risco era necessário. A fome tinha de ser saciada. Tinha de ser acalmada.
E lá estava a ele. Um animal espreitando sua vítima. Estudando seus movimentos, antes do bote fatal. E a presa se aproximava, meio arrisca, mas curiosa. A pessoas de “bom coração” geralmente eram assim. Havia uma força que as forçavam a enfrentar certos perigos. A tentarem usar seu dom para ajudar alguém. Mesmo que essa ajuda colocasse sua própria segurança em risco. E isso é que as tornavam presas mais fáceis. O cuidado com a vida do próximo. E isso fazia toda a diferença.
Não era uma presa jovem, como as últimas. Mas era saudável, e isso importava mais. A carne saudável era seu objetivo. Ela é que faria com que ele continuasse em sua metamorfose carnal.
Ao se aproximar ela notou que ele tremia e suava muito. Ouvia até pequenos gemidos de dor e angústia daquela pobre criatura. Tão sofrida e desprotegida na noite fria de inverno.
- Por… favor… tenho… muita fome…e muito… frio – gania o pobre ser maltrapilho.
- O senhor está bem? Perguntou a mulher.
- Tenho… fome… muita fome – foram suas palavras em resposta. – Acho que… estou doente…, doente de foomeeeeee – grunhiu ele.
Compadecida com o sofrimento do moribundo a mulher abriu a bolsa em busca de algumas moedas.
- Moça… você poderia… olhar se meu cãozinho está bem. Ele está… muito quieto… eu estou com medo…por favor…
O pobre coitado parecia desesperado.
- Eu olho sim. Onde ele está? Perguntou ela comovida com a preocupação do mendigo.
- Ali atrás. Está enrolado nas cobertas, ao lado da caçamba.
FIM